Rita Batista fala sobre silêncio, presença e os aprendizados de ocupar espaços sem abrirmão de si mesma

Da televisão ao rádio, da música à cultura, a comunicadora reflete sobre saúde mental, identidade, amadurecimento e os caminhos que a levaram a valorizar o descanso, a escuta interna e a própria presença em um mundo cada vez mais acelerado.

Pergunta 1 – Sua trajetória passa pela televisão, rádio, música e cultura, sempre muito conectada à comunicação e à presença. Em uma rotina tão atravessada pela fala e pela troca com o outro, como você percebe hoje a importância do silêncio e da pausa para a própria saúde mental?


Rita Batista: Lulu Santos já nos ensinou, né, que não existiria som se não houvesse o silencio. Eu sei que todos os meus ofícios são atravessados pela palavra, mas é um ditado que diz, né, que a palavra é prata, mas o silêncio é ouro. Eu acho que, num mundo tão barulhento, com tantas informações, em que a gente é bombardeado o tempo inteiro, seja na internet, na TV, no rádio, é o tempo todo. A gente tá buscando informação, todo mundo quer ser muito bem informado, mesmo, infelizmente, às vezes, não buscando das fontes profissionais para que essa boa informação siga e você consiga fazer, de fato, a sua formação de opinião. Mas todo mundo quer saber primeiro, todo mundo quer debater, mesmo que superficialmente, todos os assuntos que estão em voga. Então, é importantíssimo um momento de silêncio, de pausa, de calma, para que você possa escutar as suas vozes internas, que lhe dizem muito. Muitas vezes, são até mais importantes do que tudo que tá ao redor. Então, eu sou essa pessoa que valoriza o silêncio, valoriza esses momentos de linguagem não verbal, porque é importante fazer essa higiene mental, e não só em momentos cruciais do dia, como uma hora antes de dormir ou logo após eu acordar, mas no meio da tarde mesmo, sabe? É nas pausas, quando eu tô estudando os textos também, para que aquelas palavras se integrem e para que façam junção com a emoção. Eu acho que, às vezes, a gente tá precisando mesmo silenciar o externo para ouvir o interno, que tá aos berros e a gente não consegue escutar.

Pergunta 2 – Você ocupa espaços de visibilidade há muitos anos sendo uma mulher negra em ambientes que, historicamente, nem sempre foram construídos para isso. O que essa trajetória te ensinou sobre preservar identidade sem endurecer quem você é?


Rita Batista: Tão importante quanto saber onde pisa é saber como pisa. Para nós, mulheres negras, adentrar espaços que, historicamente, não foram bem aceitos, a nossa presença não foi bem aceita, que não foram criados para nos acolher, para nos receber, para nem nos tolerar, é importante que a gente saiba como chegar. E aí eu não digo que chegue de cabeça baixa, curvada, sem saber direito onde pôr as mãos. Não. Se aproprie daquele espaço, daquelas pessoas, daquele lugar, para que você seja respeitada. Olhe nos olhos das pessoas. Então, não precisa endurecer a sua casca, que já é dura, muito pelas nossas antepassadas, as nossas ancestrais, que tiveram um árduo caminho para que hoje a gente possa desfilar em todos esses ambientes, mas que pavimentaram esse caminho para que hoje a gente se utilize dele e faça com que tantas outras venham conosco, ao nosso lado, irmanadas, de braços dados. Então, acho que a primeira coisa é isso: você saber quem você é, o quanto você pode e o quão longe você quer seguir. Tão importante quanto saber onde pisa é saber como pisa. Para nós, mulheres negras, adentrar espaços que historicamente não foram criados para nos acolher exige consciência de quem somos e de como ocupamos esses lugares. E aí eu não digo que chegue de cabeça baixa, curvada, sem saber direito onde pôr as mãos. Não. Se aproprie daquele espaço, daquelas pessoas, daquele lugar, para que você seja respeitada. Olhe nos olhos das pessoas. Não precisa endurecer a sua casca. As nossas ancestrais já pavimentaram esse caminho para que hoje a gente se utilize dele e faça com que tantas outras venham conosco, ao nosso lado, irmanadas, de braços dados.

Pergunta 3 – Existe uma energia muito forte na forma como você comunica: leveza, humor, movimento, afeto. Em algum momento você percebeu que sustentar essa presença também exige cuidado emocional fora das câmeras?

Rita Batista: Eu tenho certeza que o mais acertado para que mantenhamos a nossa saúde mental em dia, nossa saúde física em dia, para que equilibremos todos os pratos rodando ao mesmo tempo, é, às vezes, deixar cair um ou outro, mas sabendo que eles são substituíveis, porque essa é uma das dinâmicas da vida. É não afastar tanto a
persona da personalidade. Para quem tem trabalho público, para quem trabalha com televisão, como eu, com artes, com palco, e que muitas vezes as pessoas idealizam um convívio comigo, ou como eu devo ser, a partir daquilo que eu apresento para elas, quando não há esse choque de uma pessoa que passa a me conhecer ou me encontra num lugar em que eu esteja descaracterizada, em que eu não esteja exercendo meu papel, meu
trabalho, aí você ter essa persona ajustada com a sua personalidade, não ser muito diferente disso, a não ser que você esteja representando — aí é impossível não ser assim. Mas que você equilibre isso para que nem você precise se sacrificar para essa execução diária, cotidiana, e nem as pessoas também tenham um susto quando lhe encontrarem fora da tela.

Pergunta 4 – Hoje existe uma cobrança constante para que mulheres estejam sempre disponíveis, produtivas e emocionalmente equilibradas. O que mudou na sua relação com descanso, limite e autocuidado ao longo dos anos?

Rita Batista: Essa busca incessante por performance, resultado, qualidade, entre aspas e em itálico, a gente percebe que é um conduíte para o estresse emocional, físico, para o esgotamento, para a exaustão completa, principalmente das mulheres. As mulheres, ao longo dos séculos, foram colocadas nesses potinhos de que elas seriam as responsáveis pelo cuidado com a família, com os pais, com os companheiros, com os filhos, mas sempre se esquecendo delas próprias. E a gente tem acompanhado essa evolução também nas exigências do feminino para a vida profissional, por exemplo, para esse rigor, para que as mulheres tenham todos os melhores índices, ocupem as primeiras fileiras das projeções que são feitas para elas, em detrimento da sua saúde, da sua tranquilidade, da sua paz e, principalmente, do seu descanso. Então, eu entendi isso muito rápido. Eu não queria repetir, por exemplo, jornadas triplas ou quádruplas que eu vi a minha mãe e a minha avó fazendo, em casa, na rua e etc. Não queria me culpar se eu um dia estivesse comprando alimentos já fracionados e higienizados, ao invés de comprar um alimento na feira que eu fosse porcionar, que eu fosse higienizar, que eu fosse cozinhar. Porque era uma honra isso, e eu tinha que cumprir esse papel. Então, eu fui deixando isso muito de lado, honrando aquelas que fizeram isso para que eu pudesse hoje escolher, por exemplo, mas me libertando
dessas amarras que, infelizmente, o patriarcado, o machismo e a heteronormatividade vão nos aprisionando e, às vezes, a gente, sem perceber, sente. Essa busca incessante por performance, resultado e qualidade é um conduíte para o estresse emocional, físico, para o esgotamento e para a exaustão completa, principalmente das mulheres. Eu entendi isso muito rápido. Não queria repetir, por exemplo, jornadas triplas ou quádruplas que eu vi a minha mãe e a minha avó fazendo, em casa, na rua e etc. Fui deixando isso muito de lado, honrando aquelas que fizeram isso para que eu pudesse hoje escolher, mas me libertando dessas amarras que, infelizmente, o patriarcado, o machismo e a heteronormatividade vão nos aprisionando e, às vezes, a gente, sem perceber, sente.

Pergunta 5 – Você fala sobre amadurecimento de uma forma muito natural e sem nostalgia. O que o tempo te ensinou sobre corpo, rotina e qualidade de vida que talvez você não entendesse antes?

Rita Batista: Ah, acho que uma das melhores coisas que a maturidade traz para a gente é a certeza de que cada momento é único e de que a gente precisa aproveitar com toda força, com toda energia, com todo gás. O que aconteceu há vinte, há dez, há trinta anos foi bom, mas passou. E que agora, o agora tá acontecendo, né? O tempo presente tá aqui. E é maravilhoso a gente ter essa possibilidade de viver. A cada manhã, quando eu acordo, a cada novas vinte e quatro horas que eu vivo, eu agradeço a minha existência, agradeço à espiritualidade, agradeço ao divino por estar aqui, poder estar aproveitando, poder estar vivendo, poder estar realizando, poder estar fazendo. Então, eu acho que isso é primordial. A vida é finita, minha gente. Infelizmente, a vida acaba. Então, apure todos os sentidos para aproveitar cada sopro de vida que lhe é dado a cada manhã.

Pergunta 6 – Se você pudesse deixar uma mensagem para mulheres que acompanham sua trajetória e ainda sentem dificuldade em ocupar espaços sem abrir mão de si mesmas, qual seria?


Rita Batista: Queridas, primeiro a gente faz o que pode para depois fazer o que quer. E é importante lembrar sempre, por mais que sejamos pressionadas o tempo todo, que devagar também se anda, devagar também se caminha e se chega onde quer chegar. Às vezes, a gente precisa entender isso na caminhada, na trajetória acontecendo, fazendo, realizando. Então, vai devagar, mas sempre. E, à medida que você puder, aumente o passo. Hahaha! Quando chegar lá, me diga, viu? Vou estar te esperando.

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