Romana Novais fala sobre maternidade, medicina e os aprendizados de integrar diferentes papéis sem abrir mão de si mesma

Da rotina como médica à maternidade, passando pela vida pública, pelos projetos sociais e pelo autocuidado, Romana Novais reflete sobre saúde da mulher, culpa, vulnerabilidade e os desafios de construir equilíbrio em uma rotina que exige presença constante. Na conversa, ela compartilha como aprendeu a conciliar diferentes identidades sem abrir mão da própria essência e por que acredita que cuidar de si também faz parte de cuidar dos outros.

INVOGA SAÚDE – Você construiu uma carreira na medicina enquanto também se tornou uma figura pública e mãe. Em muitos contextos, essas identidades parecem competir entre si, mas fazem parte da mesma vida. Em que momento você percebeu que não precisava escolher entre ser médica, mulher e mãe, mas sim reorganizar essas partes dentro da sua própria rotina?

Romana Novais – Eu não, não demorei pra entender que o problema não era ter múltiplos papéis, mas acreditar que eu precisava exercer todos da mesma forma o tempo inteiro. Eu nunca enxerguei essas áreas da minha vida como concorrentes entre si. Ser mãe, ser médica, empreendedora e atuar, né, na área social à frente do Instituto Alok, e também ter essa exposição aqui nas redes sociais, né, essa exposição pública, são partes da minha história. Então, cada uma dessas experiências me transforma e me torna melhor nas outras, e é assim que eu acredito. Eu, em nenhum momento, senti que eu precisava escolher, né, entre uma delas. O desafio não é decidir quem eu vou ser, mas encontrar um equilíbrio, né, pra exercer cada papel com presença, com responsabilidade. Existem, sim, momentos, né, fases em que uma área vai exigir mais atenção do que a outra. Isso faz parte da vida. Mas hoje eu entendo que a realização não é abrir mão de partes de quem eu sou, mas aprender a integrá-las de forma harmoniosa à minha rotina. Eu amo ocupar todas essas áreas. Eu sou muito feliz sendo todas elas e não aceito abrir mão de nenhuma delas.

INVOGA SAÚDE – A medicina exige presença, responsabilidade e tomada de decisão constante, enquanto a maternidade também pede um tipo muito específico de presença emocional. Na sua experiência, como esses dois papéis se atravessam no dia a dia e o que você aprendeu sobre limites e adaptação entre eles?

Romana Novais – A medicina me ensinou muito sobre responsabilidade, sobre escuta, né, ativa, sobre presença. A maternidade também, mas aprofundou tudo isso, né? Então, como médica, eu lido diariamente com decisões que impactam vidas. E, como mãe, eu estou sempre, né, aprendendo que nem tudo está sob o nosso controle. A maternidade me traz essa flexibilidade, e a medicina me ajudou a desenvolver a disciplina. Então, o maior aprendizado foi entender que não existe uma perfeição em nenhum dos dois papéis. Existem ajustes constantes, limites saudáveis e essa capacidade, né, de se adaptar sem culpa.

INVOGA SAÚDE – Sua rotina também envolve viagens, shows e uma dinâmica muito intensa ao lado do Alok. Como você constrói equilíbrio dentro de uma vida que mistura maternidade, medicina, trabalho e uma rotina tão fora do convencional?

Romana Novais – Realmente a minha rotina foge um pouco do que é considerado convencional, né, mas eu procuro construir uma estabilidade dentro dela. Eu tenho clareza dos meus valores, das minhas prioridades, então eu viajo, trabalho, acompanho projetos, mas eu também participo ativamente, né, da educação dos meus filhos, das decisões relacionadas aos meus filhos, faço essa questão de estar sempre presente. Então eu aprendi que o equilíbrio não significa fazer mais ou menos coisas, mas ter clareza sobre o que é inegociável pra mim. E quando isso está bem definido, as escolhas acabam se tornando mais simples, tudo fica mais leve. Eu acredito que definir prioridades e estar de acordo com seus valores facilita muito tudo, né, na vida.

INVOGA SAÚDE – Ao longo dos últimos anos, a conversa sobre saúde da mulher e maternidade ganhou mais espaço, mas ainda existe muita idealização em torno desses processos. O que a sua vivência como médica e como mãe te mostrou sobre o que quase nunca é dito sobre esse período da vida?

Romana Novais – Eu acho que ainda se fala muito pouco sobre essa ambivalência da maternidade. É possível, sim, a gente amar profundamente os nossos filhos e, ao mesmo tempo, sentir cansaço, dúvidas e essa necessidade, né, de continuar existindo como mulher além do papel de mãe. Isso é natural, né, antes de ser mãe somos mulheres. E como médica e como mãe eu vejo que muitas mulheres carregam uma culpa enorme por não corresponderem a essa ideia, né, idealizada do que é maternidade. Uma das minhas maiores lições no meu contato diário com as minhas pacientes é que a gente não precisa, né, se invalidar como mulher pra ocupar um espaço na maternidade. Sempre tô trocando com elas e percebo que a gente não precisa abrir mão da nossa identidade, dos nossos sonhos, da nossa carreira profissional, do nosso autocuidado, né, pra ser boas mães. E quando isso acontece, eu vejo muitas mulheres que acabam se anulando e, aos poucos, adoecem, adormecem partes importantes de quem são. E eu também acredito que a gente precisa questionar a chamada síndrome da mulher maravilha, essa ideia de que a gente precisa dar conta de tudo sozinhas o tempo inteiro, de que mulher mãe não tem vulnerabilidades e que a gente precisa dar conta de tudo e de todos. E eu aprendi que pedir ajuda é reconhecer limites e dividir responsabilidades é um ato de maturidade, não é de fraqueza. A gente precisa mostrar também as nossas vulnerabilidades. E eu mesma prefiro chegar antes do esgotamento, mostrar as minhas vulnerabilidades, do que chegar a um esgotamento físico e mental. Então a realidade é muito mais humana do que a idealização que a gente vê por aí sobre maternidade. E a maternidade não exige essa perfeição, exige presença, responsabilidade, capacidade da gente entender que quando a gente está cuidando da gente, a gente também está cuidando dos outros. Isso faz parte de cuidar da nossa família. Então a gente precisa sim naturalizar essa maternidade real, diminuir a culpa que tantas mulheres carregam por conta dessa maternidade idealizada, que não precisa ser perfeita, ela precisa ser com presença, né, e acho que é assim que eu penso e tento trazer no meu dia a dia pra maternidade ser cada vez mais leve.

INVOGA SAÚDE – Entre a prática da medicina, a maternidade e a vida pessoal, existe uma rotina que não é linear e nem perfeitamente equilibrada. Olhando para sua trajetória hoje, o que você entende como “cuidado consigo mesma” dentro dessa realidade que não é estática?

Romana Novais – Hoje o cuidado comigo mesma não é apenas estética, apesar de gostar bastante de exercício ou alimentação. É também respeitar os meus limites, é proteger a minha energia. Cuidar da minha saúde não só física, mas mental, espiritual, saber dizer não e entender que eu preciso estar bem pra conseguir cuidar de todos, de tudo que eu amo. Então eu aprendi que autocuidado não é um luxo, não é também egoísmo. É uma forma de responsabilidade comigo mesma e com as pessoas que dependem de mim, e é assim que eu enxergo, nesse lugar mais geral mesmo de autocuidado.
ros.

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