Com curadoria de Lilian Fraiji, o projeto Casa Mundo Particular reúne nove artistas, no Apartamento 61, para refletir sobre novas formas de coexistência entre corpo, cidade e natureza





A cidade de São Paulo recebe a primeira edição da Casa Mundo Particular, que será aberta ao público no dia três de junho (quarta-feira), propõe uma reflexão sensível e urgente sobre a forma como habitamos o mundo. Idealizado por Stefania Dzwigalska, criadora e gestora de projetos culturais que articulam arte, espaço público e comunicação, o projeto acontece na Galeria Apartamento 61, no bairro dos Jardins, e inaugura um formato que se pretende periódico, ocupando a cada edição uma nova casa.
Mais do que uma exposição, Casa Mundo Particular se constrói como uma experiência imersiva expográfica, em que o espaço não apenas abriga as obras, mas participa ativamente da narrativa. A proposta parte da ideia de ocupar uma casa com natureza e arte, invertendo simbolicamente a lógica dominante da cidade, que historicamente invade a natureza com construções. Aqui, o gesto é outro: devolver à casa uma dimensão orgânica, viva e relacional.
Participam desta edição nomes como A Transälien, Alessandra Vinksnaitis, Beatriz Lindenberg, Edbrass Brasil, Louise Martins, Monica Ventura, Novíssimo Edgar, Renata Padovan, Robinho Santana e a dupla Gramáticas da Natureza (Carolina Coronato e Vitor Barão), reunindo artistas de diferentes origens, abordagens e visões de mundo. As obras são inéditas e, em grande parte, desenvolvidas em diálogo direto com o espaço, ampliando o debate proposto a partir de múltiplas linguagens.
Entre as experiências propostas, destaca-se a participação da artista olfativa Alessandra Vinksnaitis e da artista conceitual Louise Martins , que desenvolve uma obra olfativa inédita para o espaço. A partir da ativação da memória por meio do olfato, entendido como um sentido profundamente relacional, a artista evoca o ecossistema do jacarandá-da-bahia, árvore nativa do Brasil quase extinta pelo uso predatório de sua madeira. A fragrância surge como memória viva desse território, trazendo à tona não apenas a árvore, mas o ambiente que a sustentava.
Com notas de umidade, flores de jacarandá e a presença sutil de fungos, a composição reconstrói no corpo a experiência da floresta. O cheiro carrega memória, a memória carrega história e, aqui, essa história é narrada pelo próprio jacarandá, em uma fragrância que se apresenta como sua memória olfativa em primeira pessoa, afirmando a natureza como agente de si.
Partindo da ideia de que o corpo é nossa primeira casa e o planeta, nossa casa comum, Casa Mundo Particular convida o público a repensar as relações entre humanidade e natureza em um contexto marcado por transformações climáticas e urbanas. “Casa Mundo Particular é uma semente de consciência através da arte para refletirmos como habitamos nossas diversas moradas: como indivíduo, como coletivo, como natureza”, afirma Stefania Dzwigalska.
Com curadoria de Lilian Fraiji, o projeto se estrutura a partir de um olhar que articula arte, arquitetura e política, reunindo práticas que investigam as interseções entre ambiente, cultura e cidade. “Casa Mundo Particular é um espaço de comunhão onde buscamos expandir o cuidado com a diversidade da vida para além dos limites da casa. Uma casa viva, porosa, permeável e coletiva, que se afirma como lugar de encontro, de troca de afetos e saberes, mas também de resistência”, diz a curadora.
A exposição acontece no Apartamento 61, apresentado não apenas como espaço expositivo, mas como parte fundamental da experiência. A galeria transdisciplinar promove um diálogo contínuo entre o design moderno e o contemporâneo, aproximando também arte e arquitetura. O espaço ocupa uma residência modernista singular, projetada em 1939 pelo escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret e reformada em 1960 por Rino Levi, e carrega em sua própria materialidade camadas históricas que atravessam a exposição.
“Estamos muito animados em receber ‘Casa Mundo Particular’, especialmente pelo gesto de pensar obras a partir da casa, da sua escala, da sua história e das relações que ela propõe. São trabalhos que não chegam prontos, mas que se constroem nesse diálogo direto com o espaço. Ao reunir artistas em propostas site-specific, a exposição traz uma dimensão ecológica que nos interessa muito, não como tema isolado, mas como uma forma de pensar convivência, entre obra e ambiente, entre corpos, entre modos de habitar. Existe uma leitura muito sensível sobre como ocupamos o mundo hoje.”, afirma Vivian Lobato, sócia da galeria.
Entre os artistas, as investigações materiais e conceituais também ganham destaque. Monica Ventura comenta: “Esse projeto propõe interconexões, um encontro entre artistas, materialidade e elementos vivos. É uma oportunidade de apresentar minha prática que justamente aponta para a celebração da ancestralidade e os diversos modos de se relacionar com a matéria, o orgânico, o visível e o invisível.”
Já Novíssimo Edgar destaca o caráter experimental de sua participação: “Fico muito contente de poder experimentar e tirar algumas ideias que eu já estava com vontade de fazer há algum tempo que é trabalhar com ferro, com metal, folhas de ouro, entender ferrugem, todas essas questões de intempérie também para poder pensar uma obra comissionada para um jardim.”
Ao reunir diferentes trajetórias e sensibilidades, Casa Mundo Particular propõe um reflorestamento simbólico e também concreto como gesto de reconexão, em que arte e ecologia operam como ferramentas de transformação.
Durante o período expositivo, o espaço contará ainda com uma programação complementar que inclui encontros, visitas guiadas e experiências voltadas ao público, promovendo trocas entre artistas, especialistas e visitantes. O projeto é viabilizado pelo PROMAC – Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais, com apoio da Prefeitura de São Paulo, patrocínio do Quinto Andar e realização da produtora Tête-à-Tête.









