Amanda Meirelles fala sobre limites, identidade e o que sustenta o bem-estar em meio à exposição

Ela reflete sobre corpo, escolhas e o que muda quando o cuidado deixa de ser cobrança e passa a ser um lugar de consciência e presença no próprio processo

1 — Antes de ficar conhecida, você já vivia uma rotina intensa, entre plantões, estudo e a pressão de dar conta de tudo. Depois vieram as redes, a exposição e uma nova forma de ser observada. O que mais mudou na forma como você se vê hoje em comparação com a Amanda de antes?

Resposta: O que mais mudou na forma como eu me vejo hoje? Eu acho que antes eu me media muito pelo quanto eu dava conta, quase que uma lógica de produtividade emocional. Se eu suportava mais, eu era melhor. E hoje eu me observo mais do que eu me cobro, sabe? Acho que a exposição, ela me obrigou a enxergar coisas que, no anonimato, eu consegui esconder até de mim mesma. Então eu realmente, hoje, me olho com o mesmo amor que eu olho pros outros.

2 — Existe uma pressão muito grande para que mulheres expostas pareçam bonitas, confiantes e “bem resolvidas” o tempo todo. Em algum momento você sentiu que começou a performar uma versão de si mesma para agradar ou corresponder ao que esperavam de você? Como você olha para isso hoje?

Resposta: Você já sentiu que performava uma versão sua? Não, eu nunca senti que performava uma versão minha. Eu acho que isso vem de consciência, porque eu entendi, desde muito cedo, que, no momento em que você começa a se ajustar demais pra caber no olhar do outro, senta num lugar muito difícil de sair. É claro que toda exposição que o programa me deu, ela traz um tipo de filtro, mas eu nunca construí uma outra versão de mim pra ser aceita. O que eu fiz, e eu ainda faço, é escolher o que eu mostro e não inventar o que eu sou, né, a pessoa que eu sou. É porque eu acredito que sustentar as próprias escolhas, por mais que às vezes seja muito mais difícil, é muito mais possível do que sustentar um personagem.

3 — Nos últimos anos, você falou abertamente sobre o lipedema, desde o diagnóstico até a decisão de cirurgia. Existe uma diferença muito grande entre conviver durante anos com um desconforto e, em algum momento, finalmente entender que aquilo não era exagero nem insegurança. Como foi viver esse processo de forma tão pública e o que ele mudou na sua relação com o próprio corpo?

Resposta: Como foi viver o processo de lipedema de forma pública? Foi libertador e acredito que num local de muita responsabilidade também, porque eu demorei muito tempo pra conseguir compreender o meu corpo. E eu acho que falar isso abertamente, né, de uma maneira mais exposta, sem filtro, e expondo as minhas vulnerabilidades também, criou um espaço ali de identificação muito potente. Eu vejo e recebo muitas mensagens de mulheres que se reconheceram com os meus vídeos e que agora conseguem compreender o próprio corpo. Então, hoje a minha relação com o corpo, ela é menos sobre cobrança e mais sobre cuidado e respeito, né? Não é um lugar perfeito, mas é um lugar muito gentil.

4 — No meio de tanta exposição, trabalho e cobrança, o que você descobriu sobre os seus próprios limites? Hoje, o que realmente sustenta o seu bem-estar quando a rotina fica intensa demais?

Resposta: O que você conseguiu descobrir sobre seus limites? Eu descobri que o meu limite não é onde eu paro, né, mas é o ponto que eu ainda consigo me reconhecer. Porque, por muito tempo, eu confundi ultrapassar os meus próprios limites com força e, de fato, né, muitas pessoas confundem isso, mas tem uma linha muito tênue entre resistência e o autoabandono. E eu já tive contato com os dois lados, né? E hoje eu presto mais atenção no curso das coisas, não no resultado, mas sim no preço interno que eu vou ter que pagar, porque dá pra dar conta de muita coisa e, ainda assim, não se perder no meio do processo todo.

5 — Hoje você transita entre muitos papéis ao mesmo tempo: mulher, médica, empresária, influenciadora e comunicadora. Em meio a tantas expectativas, o que você sente que precisou proteger em si mesma para não se perder no caminho?

Resposta: O que você precisou proteger de si mesma? Eu precisei proteger a capacidade de sentir sem precisar ficar se justificando. Porque, quando você começa a ocupar muitos papéis, sempre tem aquela tendência de querer racionalizar tudo, né, inclusive o que precisa ser vivido. Então eu deixei esse lugar mais silencioso, que não precisa de explicação pra mim mesma, né? Porque eu acho que é isso que me mantém inteira. Não dá pra dar conta de tudo e também não vale a pena me perder no meio do caminho.

Pergunta bônus — Se você pudesse voltar alguns anos e encontrar a Amanda que ainda não era conhecida, mas já carregava tantas cobranças e inseguranças, o que diria para ela hoje?

Resposta: Eu diria que ela não precisa se tornar alguém diferente pra começar a se respeitar, que ela vai conquistar muita coisa, mas que nada disso compensa o que ela adia em si mesma, sabe? Então, não espera tempo para se cuidar, organizar as coisas, começa no meio, começa do jeito que dá. E que ela vai inspirar muitas pessoas com as suas fragilidades e com as suas forças também.

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