Marcela Mc Gowan: “Não há erro nenhum em se colocar como prioridade”

Médica, empresária, autora e criadora de conteúdo, Marcela fala sobre saúde feminina, dor naturalizada e o que aprendeu ao transformar consultório em propósito de vida

Há profissões que se aprendem nos livros e há propósitos que se descobrem no consultório, ouvindo o que ninguém mais parava para escutar. Foi assim que Marcela Mc Gowan, ainda em formação de ginecologia, percebeu que a dor das suas pacientes tinha um padrão silencioso: era contada, mas nunca tratada. Anos depois, essa constatação viraria carreira, livros, podcast, uma empresa chamada Magix e uma das vozes mais ouvidas quando o assunto é saúde e sexualidade feminina no Brasil.

Conversar com Marcela é entender rapidamente que, apesar da multiplicidade de frentes em que atua, existe uma linha que costura tudo. “Tudo que eu faço gira em torno do meu propósito de vida, que é trabalhar em cima de saúde feminina, sexualidade feminina, promover mais liberdade pras mulheres”, explica ela. Da formação em ginecologia aos livros, passando pelos looks que escolhe usar, a coerência é proposital. “Apesar de eu fazer muitas coisas ao mesmo tempo, elas são todas coerentes com o que eu quero passar pro mundo.”

Marcela durante a entrevista à Invoga Saúde — Foto: Samara Nogueira

Um silêncio que virou propósito

Foi ainda no início da carreira, atendendo pacientes no consultório, que Marcela identificou a lacuna que moveria o restante da sua trajetória. As mulheres chegavam com queixas sobre dor e sexualidade que raramente eram respondidas. “Eu vi que essa era uma temática muito silenciada. As mulheres traziam pro consultório essa queixa, essa dor, e elas não tinham isso atendido. Os médicos não falavam sobre sexualidade, não davam nenhum tipo de retorno”, relembra. “Percebi que tinha um gap que precisava ser sanado, e aí fui atrás de estudar, e descobri um mundo que me encantou muito.”

A descoberta, segundo ela, não ficou restrita ao consultório. Veio acompanhada de reflexões mais amplas sobre gênero e sobre o que significa ser mulher em sociedade, um processo que, segundo Marcela, “mudou minha vida como pessoa e como profissional” e transformou aquilo em um propósito central.

A dor que ninguém questiona

Entre os temas que Marcela considera ainda pouco discutidos dentro da saúde feminina, um se repete com frequência alarmante: a dor tratada como normalidade. “Ter dor na relação, ter dor durante cólicas menstruais, tudo isso é passado como se fosse assim mesmo, quando isso não é uma verdade”, afirma. Para ela, essa naturalização, somada à resistência que muitas mulheres ainda sentem em se conectar com o próprio corpo, seu ciclo, suas secreções, é um dos maiores pontos cegos da conversa pública sobre saúde.

“Ter dor na relação, ter dor durante cólicas menstruais, tudo isso é passado como se fosse assim mesmo, quando isso não é uma verdade”

Essa mesma investigação também aparece na forma como Marcela enxerga a saúde mental e física como território inseparável. “A nossa saúde mental tem uma relação direta e indireta com a nossa saúde física, isso é fisiológico e biológico”, diz. Um exemplo prático, segundo ela, aparece constantemente em seu trabalho com libido: “Muitas vezes achando que é só uma coisa física. Quando a gente vai investigar, tem muito mais a ver com saúde mental, com estresse crônico.”

Uma relação com o próprio corpo em constante construção

Se hoje Marcela fala abertamente sobre sexualidade, nem sempre foi assim. Ela conta que o processo de descoberta que conduziu com suas pacientes também foi, paralelamente, um processo pessoal. “Não foi uma pessoa que desde sempre soube lidar com a minha sexualidade de uma maneira tranquila. Tudo que eu fui aprendendo, eu fui aplicando a mim”, revela. O resultado, segundo ela, é uma relação hoje mais próxima e respeitosa com o próprio corpo, “sei muito sobre meu ciclo, sei quando alguma coisa não tá legal antes mesmo de qualquer grande sintoma aparecer.”

Foto: Samara Nogueira

O clichê que ela decidiu levar a sério

Autocuidado é, para muita gente, palavra vazia de tanto ser repetida. Marcela reconhece isso, e, mesmo assim, decidiu não abrir mão. “Eu tive que fazer o clichê dos clichês, que é entender que esse cuidado tinha que ser uma prioridade, senão ele não ia acontecer”, diz, rindo da própria constatação. Na prática, isso significa rotina protegida: horário de academia inegociável, momentos com a esposa e com os gatos preservados, e um limite claro com o celular no fim do dia. “Porque senão a gente é realmente tomado por todas as demandas e não consegue fazer o nosso cuidar ser uma prioridade. Ele precisa ser, a gente merece.”

Liberdade como bússola

Quando questionada sobre o que significa, hoje, estar bem consigo mesma, Marcela vai direto ao ponto: liberdade. “Eu acho que nós mulheres somos muito podadas, de fazer o que a gente quer, de ser quem a gente quer”, reflete. Para ela, cada esforço em direção a se vestir, falar e trabalhar do jeito que escolhe é também um esforço em direção ao próprio bem-estar. Mas há outro ingrediente que ela considera igualmente essencial: propósito. “É melhor se comparar com a versão que a gente quer ser do que ficar se comparando com outras pessoas”, resume.

A mensagem que ela repete sem cansar

Se pudesse deixar um único recado para mulheres que ainda colocam a própria saúde em último lugar, Marcela não hesita. “Você só tem uma vida, e você tem que ser a protagonista dela”, afirma. Ela reconhece que mulheres são ensinadas, desde cedo, a cuidar de tudo e de todos, menos de si mesmas. E é justamente nesse ponto que insiste: “Isso tem que ser inegociável, a sua saúde. Sem ela, você não consegue atingir nenhum dos seus objetivos, você não consegue nem cuidar dos outros.”

A mensagem final, direta e sem rodeios, resume o espírito da conversa inteira: “Não se deixem pra depois, se coloquem como prioridade. Não há erro nenhum em se colocar como prioridade na sua própria vida.”

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