Esther Bruno fala sobre força, presença e o equilíbrio entre corpo e mente

Professora de yoga e cofundadora do ForceFlow Yoga, Esther Bruno reflete sobre saúde mental, autocuidado, autoconhecimento e a importância de fortalecer o corpo sem abrir mão da fluidez. Na conversa, ela compartilha como o movimento pode ser um caminho para desenvolver confiança, respeitar os próprios limites e construir uma relação mais consciente consigo mesma.

1 – O ForceFlow Yoga nasceu de uma busca por mais força dentro de uma prática conhecida pela flexibilidade. Que percepção sobre o corpo fez você criar esse método?

Esther Bruno: Olá, pessoal do Invoga Saúde. Eu sou a Esther Bruno, professora de yoga e
cofundadora do método ForceFlow Yoga, ao lado da minha sócia, Thaisa Girotto. Nós
criamos um método que nasceu de uma necessidade, de uma experiência muito pessoal
nossa. Sempre fomos super flexíveis e, com o tempo, fomos percebendo que essa
hiperflexibilidade não era legal. Ela nos tornava frágeis. Precisávamos, então, fortalecer os
nossos músculos para proteger as nossas articulações, que eram extremamente flexíveis.
Mas percebemos também que faltava sustentação para além do nosso corpo físico. Faltava
uma força para sustentar a vida, de fato. O yoga sempre foi uma prática completa. A nossa
inquietação era outra: como desenvolver mais força sem perder a essência do yoga.
Começamos, então, a estudar, experimentar e aprofundar essa ideia, e percebemos que
essa não era uma necessidade só nossa. Era uma necessidade comum das nossas alunas
e, na verdade, uma necessidade contemporânea. Hoje, sabemos que a força muscular é
um dos pilares da saúde, da funcionalidade e da longevidade. E foi desse encontro que
nasceu o ForceFlow Yoga, uma prática que une força e fluidez, fortalecendo o corpo sem
perder a essência do yoga. A verdade é que o nosso objetivo nunca foi apenas adicionar
um peso extra à prática. Sempre foi descobrir como a força pode aprofundar a experiência
da própria prática de yoga.

2 – Durante muito tempo, o yoga foi associado à flexibilidade e ao relaxamento. O que muda quando entendemos que força e fluidez também podem coexistir na prática?

Esther Bruno: Durante muito tempo, o yoga ficou conhecido como uma prática parada
demais ou difícil demais, por conta das posturas com excesso de flexibilidade. Mas nós
acreditamos que um corpo verdadeiramente saudável precisa de duas qualidades: força e
fluidez. A flexibilidade é aquela que nos permite adaptar, mover e ampliar as possibilidades.
A força já nos permite sustentar, estabilizar e permanecer. Quando existe apenas força, a
gente corre o risco da rigidez. E, quando existe apenas a flexibilidade, corremos o risco de
nos tornarmos frágeis demais. É no equilíbrio entre essas duas qualidades que
encontramos um corpo mais funcional, mais resiliente e mais preparado para a vida. Essa
visão vai além do corpo. Quantas vezes a gente precisa de força para sustentar uma
decisão, um relacionamento ou um momento difícil? E quantas vezes precisamos da fluidez
para mudar de direção, nos adaptar e conseguir seguir em frente? Pois é, no ForceFlow
Yoga, acreditamos que o corpo é uma ferramenta de aprendizado para a vida. Então, a
força dá sustentação ao movimento, e a fluidez dá inteligência à força. Por isso, o nosso objetivo nunca foi mudar a essência do yoga. Sempre foi ampliar a experiência da prática,
desenvolvendo força sem perder a fluidez, a presença e a conexão.

3 – Em uma época em que o corpo feminino ainda é muito visto pela aparência, como o movimento pode se tornar uma forma de reconexão?

Esther Bruno: A consciência corporal é uma das ferramentas mais poderosas de
autoconhecimento que existem. Nós passamos boa parte da vida tentando entender a
mente, quando, muitas vezes, o corpo já está contando a história inteira. Costumo dizer que
o corpo sempre fala antes da mente conseguir colocar em palavras e aprender a escutá-lo é
uma das formas mais inteligentes para o desenvolvimento pessoal e corporal. Quando nós
começamos a perceber a nossa respiração, tensão dos músculos, postura e a forma como
lidamos com os desafios propostos na prática do yoga, passamos também a reconhecer os
padrões emocionais e comportamentais do nosso dia a dia. É por isso que no ForceFlow
Yoga não treinamos apenas os músculos, trabalhamos a presença, consciência e conexão.
A força é uma ferramenta, mas nunca é o objetivo final. Ela existe para aprofundar a
experiência da prática e ampliar a nossa percepção sobre nós mesmos. Acho que, durante
muito tempo, as mulheres foram ensinadas a olhar para o corpo apenas pela estética. A
pergunta sempre foi: “Como eu pareço?” Eu acredito que a pergunta mais importante é:
“Como eu me sinto?”. Quando essa mudança acontece, o movimento deixa de ser uma
tentativa de mudar o corpo e passa a ser uma forma de cuidar dele, entende? Pra mim, é aí
que acontece a verdadeira transformação: quando o corpo deixa de ser um lugar de
cobrança e passa a ser um lugar de força, conexão, liberdade e presença.

4 – Você atende mulheres em fases e rotinas muito diferentes. O que você observa de comum entre elas quando chegam até a sua prática?

Esther Bruno: Sim. Embora cada mulher tenha uma história diferente, percebo que existe
algo que as une: quase todas chegam cansadas de viver para fora e querendo, de alguma
forma, voltar para dentro. Elas procuram acolhimento, mas também procuram coragem.
Coragem para se observar, para se aceitar, para reconhecer suas vulnerabilidades sem
perder de vista a própria potência. Muitas chegam dizendo que querem mais flexibilidade,
aliviar uma dor ou diminuir a ansiedade. Mas, com o tempo, percebem que estavam
procurando algo muito mais profundo: reconectar-se consigo mesmas. Acredito que toda
mulher carrega uma força imensa, mas, muitas vezes, ela está escondida debaixo das
exigências, das expectativas e dos papéis que ela precisou assumir ao longo da vida. O
yoga cria um espaço de silêncio onde ela consegue se ouvir novamente. É por isso que, no
ForceFlow Yoga, nós falamos tanto sobre força. Não apenas a força muscular, mas aquela
força que nos ajuda a sustentar escolhas, estabelecer limites, confiar na nossa intuição e
ocupar o nosso lugar no mundo, sabe? E por fim, acredito que elas não chegam procurando
apenas uma prática. Elas chegam procurando um caminho para voltar a acreditar na própria
capacidade. E, quando isso acontece, o corpo muda, a postura muda, a forma de respirar
muda… e, muitas vezes, a vida muda junto, é muito legal ver essa transformação e
evolução.

5 – Depois de uma prática de ForceFlow Yoga, o que você espera que permaneça além da sensação física?

Esther Bruno: Ao final da prática de ForceFlow Yoga, a gente espera que as mulheres não
saiam apenas mais fortes fisicamente. A gente quer que elas se sintam capazes. Capazes de sustentar uma postura, uma respiração, um desafio e, com isso, perceber que também
são capazes de sustentar a própria vida com mais presença, equilíbrio e confiança. No
ForceFlow Yoga, nós acreditamos que o corpo é o caminho para o autoconhecimento.
Quando fortalecemos o corpo com consciência, fortalecemos também a nossa capacidade
de permanecer, de lidar com o desconforto e de confiar mais em nós mesmos. Por isso,
mais do que músculos ou performance, o que queremos é desenvolver uma força que
permanece, mesmo quando a aula termina. Se, ao sair da prática, alguém se sentir um
pouco mais conectado consigo mesmo, mais confiante e mais preparado para viver os
desafios da vida com força e fluidez, então a gente sente que cumpriu o nosso propósito de
verdade.

6 – Como mulher que também empreende, cria e ensina, como você cuida da sua própria saúde mental no meio de tudo isso?

Esther Bruno: A minha saúde mental não depende de um único ritual, mas das pequenas
escolhas que faço todos os dias. A prática de yoga, a meditação, a respiração consciente e
o contato com a natureza fazem parte da minha rotina há muitos anos. E, por ser professora
de yoga, isso acaba acontecendo de forma muito natural. Quando guio uma prática ou uma
meditação, eu também preciso entrar nesse estado de presença e atenção. De certa forma,
tenho a oportunidade de voltar para esse lugar várias vezes ao longo do dia, e isso faz uma
diferença enorme para mim. Também valorizo muito o sono, uma boa alimentação e,
principalmente, aprendi a me colocar como prioridade. Acho que esse foi um dos maiores
aprendizados da minha vida. Além disso, procuro estar atenta aos sinais do meu corpo.
Perceber quando estou acelerando demais, quando preciso diminuir o ritmo, descansar ou
simplesmente dizer “não”. O yoga me ensinou que equilíbrio não é viver sempre bem. É
desenvolver sensibilidade para perceber o que precisamos em cada momento e ter
coragem de respeitar essa necessidade. Hoje me cobro muito menos do que antes.
Entendo que produtividade sem presença, no automático perde o sentido e que cuidar da
minha saúde mental é antes de tudo, cuidar da minha relação comigo mesma e por
consequência meu do meu corpo que é minha ferramenta de experiências na vida.

7 – Existe algum momento em que o seu próprio corpo te pediu pausa e você não quis ouvir? O que essa experiência te ensinou?

Esther Bruno: Sim, várias vezes. Acho que, durante muito tempo, acreditava que
descansar era perder tempo. Gostava de dar conta de tudo e sempre fui muito apaixonada
pelo que faço. Mas o corpo tem uma inteligência que a mente, às vezes, insiste em ignorar.
Com o tempo, aprendi que ele sempre dá sinais antes de pedir socorro. O cansaço, a falta
de energia, a dificuldade para dormir, a irritação… tudo isso é uma forma de comunicação.
Hoje tento escutar esses sinais muito antes de chegar ao limite. O yoga me ensinou que
respeitar o tempo do corpo não é um sinal de fraqueza. É uma demonstração de inteligência
e de autocuidado. Existe uma frase que gosto muito: O descanso também faz parte da
prática Ou seja, TÃO IMPORTANTE QUANTO FAZER, É NÃO FAZER. Acho que esse foi
um dos maiores aprendizados que o yoga me trouxe. Nem sempre crescer significa
acelerar. Muitas vezes, crescer significa saber a hora de pausar para continuar caminhando
com mais presença, saúde e equilíbrio.

8 – O que significa pra você estar bem consigo mesma hoje?

Esther Bruno: Hoje, estar bem comigo mesma significa muito menos tentar controlar a vida
e muito mais aprender a confiar nela. Durante muito tempo achei que estar bem era dar conta de tudo, produzir mais, fazer mais e buscar uma versão “melhor” de mim o tempo
inteiro. Hoje entendo que estar bem é conseguir me acolher também nos dias em que nem
tudo saiu como planejei. É saber que posso ser forte sem endurecer e flexível sem me
tornar frágil. A prática de yoga me ensinou que equilíbrio não é um lugar onde a gente
chega. É um exercício diário de presença, de escuta e de escolhas conscientes. Hoje, me
sinto bem quando consigo viver de forma coerente com aquilo em que acredito. Quando o
meu corpo, a minha mente e as minhas atitudes caminham na mesma direção. No fim, estar
bem comigo mesma não significa viver sem desafios. Significa saber que, aconteça o que
acontecer, eu construí dentro de mim recursos para atravessar a vida com mais
consciência, força e leveza.

9 – Muitas mulheres sentem que o movimento virou mais uma cobrança na rotina.
Como ressignificar essa relação com o próprio corpo?

Esther Bruno: Se uma mulher sente que praticar alguma atividade física ou movimento se
tornou uma obrigação, talvez ela ainda só não tenha encontrado a forma de se movimentar
que faça sentido para ela, que dê prazer, sabe? Durante muito tempo, nos ensinaram que
precisávamos nos exercitar ou para emagrecer, para compensar os excessos, ou para
alcançar um padrão estético. E, na verdade, o movimento, quando nasce desse lugar,
realmente pode se tornar um peso. Nós acreditamos que o movimento deveria nascer do
cuidado, não da cobrança. Quando você encontra uma prática ou uma atividade que faz
sentido para você, o exercício deixa de ser uma obrigação e passa a ser um encontro
consigo mesmo, um momento de autocuidado de verdade. No ForceFlow Yoga, nós não
queremos que as pessoas saiam apenas mais cansadas ou com uma sensação de dever
cumprido. A gente quer que elas saiam sentindo que, em apenas quarenta minutos,
cuidaram de si de uma forma integral, de uma forma completa. Que fortaleceram o corpo,
desaceleraram a mente, respiraram melhor e se reconectaram consigo mesmas. Que saiam
mais fortes, mais felizes, mais presentes e mais conscientes. Porque, no fim, cuidar do
corpo nunca deveria ser uma forma de cobrar mais de si. Deveria ser uma forma de honrar
a sua existência, a saúde do seu corpo, que é o templo sagrado dessa casa que vai te
habitar durante muito tempo.

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