Fernando Campos: “O pedestal é um lugar solitário e irreal”

Palestrante e criador de conteúdo, Fernando fala sobre saúde, exposição pública e o que ainda precisa mudar na forma como o mundo enxerga pessoas com deficiência

Fernando Campos em entrevista exclusiva à Invoga Saúde

Fernando Campos construiu uma carreira contando a própria história para milhares de pessoas, entre palestras, redes sociais e viagens. Mas, segundo ele, existe uma diferença clara entre o que compartilha e o que preserva. “Minha história em si é cem por cento pública, não guardo segredos sobre a minha trajetória. O que eu preservo é a minha intimidade”, explica. Para Fernando, o recorte que vai para as redes é só uma parte do que ele vive de verdade. “A vida real com a minha família e amigos é o que me recarrega.”

Essa fronteira, segundo ele, também protege quem está ao seu redor. “Quem está ao meu lado me apoia e até aparece por minha causa, mas não tem o dever nem a intenção de viver exposto. Respeitar esse limite é o que mantém a minha base forte.”

Saúde como presença

Sobre o que sua relação particular com o mundo lhe ensinou sobre saúde, Fernando resume em uma frase direta. “Cuidar da saúde é respeitar o próprio ritmo.” Ele reconhece viver num contexto de consumo acelerado e excesso de informação que atinge a todos, independentemente da própria condição. “O fato de eu não ser afetado pelos estímulos visuais diretos me dá um filtro diferente, mas a pressão do mundo moderno chega para todos nós”, afirma.

Para ele, não existe fórmula única. “Não existe receita pronta, cada pessoa tem a sua condição de vida e precisa aprender a se adequar a ela. Para mim, saúde é presença e autoconhecimento, é saber ler o próprio corpo e encontrar o seu jeito de viver bem em meio a toda essa velocidade.”

Fernando Campos durante a conversa com a Invoga Saúde

Recusando os dois extremos

Fernando também aborda uma pressão silenciosa que reconhece sentir, a de parecer sempre forte e inspirador. “Sinto, porque a sociedade insiste em colocar a pessoa com deficiência em dois extremos, ou no papel de super-herói de superação, ou no de coitadinho. Eu recuso os dois”, diz. Para ele, ser bem resolvido não significa ocupar um lugar diferente do de qualquer outra pessoa.

“Eu estou apenas vivendo a minha vida como qualquer ser humano, erro, acerto, sinto dor e fico cansado” “O pedestal é um lugar solitário e irreal”, continua Fernando.

“A verdadeira força está em ter a liberdade de ser humano, com altos e baixos, sem a obrigação de inspirar ninguém o tempo todo.”

Rituais de pausa numa rotina intensa

Entre palestras, viagens e redes sociais, encontrar espaço para desconectar não é simples, mas Fernando trata isso como prioridade. Morar longe de Natal, segundo ele, intensificou a forma como valoriza o tempo presente. “Quando estou com a minha família, me desconecto com facilidade para aproveitar cada segundo e brincar com meus sobrinhos”, conta.

Já em São Paulo, o processo exige mais intenção. “A rotina em São Paulo exige que eu encontre meus próprios rituais de pausa, mesmo estando sozinho. A internet nos cobra presença e trends o tempo todo, mas aprender a desacelerar no meu tempo, sem a obrigação de transformar tudo em conteúdo, é o que garante a minha saúde mental.”

Trocar suposição por diálogo

Ao ser questionado sobre o que gostaria que pessoas sem deficiência entendessem melhor, Fernando aponta para uma mudança simples e concreta. “O principal é trocar a suposição pelo diálogo. Em vez de deduzir o que uma pessoa com deficiência precisa, ou achar que ela não é capaz, simplesmente pergunte, você precisa de ajuda? Como posso te auxiliar?”

Ele também é direto sobre expressões que, na visão dele, precisam desaparecer do cotidiano. “Expressões que infantilizam ou tratam a acessibilidade como favor ou caridade precisam acabar. Acessibilidade é direito básico e cidadania. Quando o mundo entende isso, a inclusão deixa de ser discurso e vira prática.”

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