Marcelo Serrado: “Respira! Tenha calma, porque vai passar”

Depois de décadas construindo personagens, o ator se coloca diante da câmera sem roteiro para falar sobre pânico, ansiedade e o que aprendeu ao transformar uma crise pessoal em propósito

Fotografia de Leo Aversa leo@leoaversa.com

Há atores que passam a vida inteira escondidos atrás de outros nomes, outras histórias, outras vidas. Marcelo Serrado fez o caminho inverso. Depois de quase 40 anos de carreira construindo personagens nos palcos e nas telas, ele decidiu se colocar diante da câmera como ele mesmo, sem roteiro, sem proteção, sem máscara. O resultado é o documentário “Fora do Roteiro”, que soma-se a um livro e a uma peça de teatro para contar uma história que ele guardou por muito tempo: a da ansiedade e dos ataques de pânico que conviveram com ele nos bastidores de uma carreira pública.

“Estou me expondo, falando dos meus altos e baixos, mas acho que existe algo maior por trás disso”, diz Marcelo. “Para mim, esse documentário fala muito mais sobre o que eu quero deixar de bom para a sociedade.” O projeto nasceu de uma situação pontual que ele viveu e do acompanhamento de médicos e terapeutas que o ajudaram a entender o que estava acontecendo. “De certa maneira, consegui me cuidar, me reencontrar e chegar a um lugar melhor. E é isso que quero compartilhar: não só a minha história, mas também mostrar que existem caminhos possíveis.”

Fotografia de Leo Aversa leo@leoaversa.com

O corpo que grita “perigo”

Marcelo descreve o ataque de pânico como o corpo gritando perigo mesmo quando a mente sabe que está segura, uma desconexão que, segundo ele, é assustadora no início, mas vai se transformando à medida que se aprende a lidar com ela. “O começo é terrível, mas, depois que você começa a descobrir que existem caminhos, tudo fica mais tranquilo”, explica. “Você aprende a se conectar com o seu corpo e com a sua mente, a perceber o gatilho antes que ele venha.”
“Você aprende a se controlar, a se manter mais calmo e vai encontrando os seus próprios caminhos. É um processo, mas, quando você entende que existem ferramentas para lidar com aquilo, tudo muda.”

Do menino tímido ao palco

A timidez e a gagueira vêm da infância. Foi o teatro que primeiro entrou como espaço de fortalecimento, e, décadas depois, Marcelo ainda se surpreende com a própria trajetória. “Eu virar ator foi realmente um milagre”, diz, rindo. “Eu era um cara muito tímido e, chegar até esse lugar, confesso que nunca imaginei.” Para ele, o orgulho não está só nas conquistas profissionais, mas em quem ele se tornou pelo caminho: “Tenho muito orgulho de tudo o que conquistei, de tudo o que ganhei ao longo dessa trajetória e, principalmente, da pessoa que me tornei, tanto como profissional quanto como pessoa.”

Uma lição que veio de casa

Marcelo cresceu ao lado de um irmão autista, dez anos mais velho, uma convivência que, segundo ele, moldou sua capacidade de entender o sofrimento alheio. “É sempre difícil ter alguém na família passando por determinadas questões, porque, de alguma maneira, aquilo também impacta todo mundo ao redor”, reflete. É uma experiência que ele reconhece hoje em outras famílias: “Talvez por isso me identifique tanto com famílias que vivem situações parecidas. Eu consigo entender muito esse processo, as dificuldades, as angústias.”

Fotografia de Leo Aversa leo@leoaversa.com

Três formatos para uma mesma verdade

Depois de anos escondendo a ansiedade nos bastidores de uma carreira pública, Marcelo decidiu contar sua história em teatro, livro e documentário, uma decisão que nasceu, segundo ele, da vontade de ajudar. “A gente está sempre falando sobre sucesso, sobre alcançar algum lugar, conquistar alguma coisa na vida, mas eu queria trazer para a sociedade algo que pudesse ser realmente importante.”
Dois momentos foram decisivos. O primeiro veio de longe: o documentário da ginasta americana Simone Biles. “Pensei: aquela mulher, campeã do mundo, passou por esse problema e teve coragem de falar sobre isso. E aquilo me deu um incentivo.” O segundo veio de perto, num aeroporto, quando uma senhora se aproximou pedindo não uma foto, mas um abraço: “Não pare de falar sobre o que você está falando, porque você me ajudou e vai ajudar muita gente.” Marcelo lembra: “Aquilo me tocou profundamente e me fez perceber o quanto eu estava próximo de pessoas que passam por situações semelhantes.”

Uma nova função, a mesma vocação

Com quase quatro décadas de carreira, Marcelo hoje também é ouvido como voz na discussão sobre saúde mental, uma função que, segundo ele, chegou de forma natural. “Nunca imaginei que, além do meu trabalho como ator, pudesse compartilhar uma experiência pessoal e, de alguma maneira, ajudar outras pessoas”, diz. “Se a minha história, aquilo que vivi e aprendi, puder abrir caminhos ou fazer alguém se sentir menos sozinho, já tem um valor enorme para mim.”

A mensagem para quem está no meio da crise

Se pudesse falar diretamente com alguém no meio de uma crise de ansiedade, coração disparado, sentindo o quarto encolher, Marcelo não hesita: “Respira! Tenha calma, porque vai passar. E, principalmente, procure ajuda para poder falar sobre isso.” Ele também recomenda a leitura de O Poder do Subconsciente, do Dr. Joseph Murphy, livro que, segundo ele, foi ferramenta importante para atravessar os próprios momentos de crise.

Coberturas
Mais recentes
Destinos
Entrevistas