Sheron Menezzes: “As nossas escolhas não precisam ser definitivas, porque a vida muda, e a gente também”

Protagonista de novela das sete, a atriz fala sobre viver uma obstetra que herda quatro filhos, o direito de mudar de ideia, a representatividade negra na teledramaturgia e a Sheron de hoje, aos 42 anos

Sheron Menezzes — Foto: Vinicius Mochizuki 

Bela é médica, racional e construiu a vida na base de estudo, disciplina e controle. Nunca quis ser mãe, e de repente se vê responsável por quatro filhos. É esse choque que atrai Sheron Menezzes na personagem. “É interessante vê-la tendo que aprender, no improviso e na marra, que cuidar do outro é uma ciência, só que do coração”, diz. Para a atriz, a maternidade chegou à personagem como uma herança de amor. “Ela está honrando, mas também bagunça todas as suas certezas. Então, ela erra, acerta, briga, aceita, conserta e muda de opinião.”

O direito de mudar de ideia

Essa liberdade de rever o que se quer é, para Sheron, uma das ideias mais importantes da personagem. “Acredito que as nossas escolhas não precisam ser definitivas nem caber numa expectativa construída pelos outros, porque a vida muda, e a gente também”, afirma. A Bela tinha desejos, prioridades e sonhos que se transformam no caminho, e isso não apaga quem ela foi antes.

“A maturidade também está em escutar a si mesma e entender o que faz sentido em cada fase”

Sheron destaca ainda que a trama mostra uma mulher que era feliz com a decisão de não ter filhos e que também é feliz agora, mesmo com os planos tendo mudado.

O que é da Sheron e o que é da Bela

Mãe na vida real, a atriz reconhece que a maternidade deixou marcas em como ela constrói a personagem. “A maternidade me deixou mais atenta aos pequenos detalhes, mais porosa e sensível. Me ensinou sobre paciência, presença e esse equilíbrio, às vezes impossível, entre meus sonhos e minha carreira”, conta. Mas a história da Bela é só dela. “É uma mulher extremamente racional que não queria essa responsabilidade, diferentemente de mim, mas que a recebe e precisa descobrir, no tempo dela, como acolhê-la.”

Sheron Menezzes — Foto: Vinicius Mochizuki 

Parto, plantão e maternidade atípica

Para entender a rotina de uma obstetra, Sheron foi à fonte. “Liguei para a minha médica e pedi para acompanhar os partos que ela iria fazer, claro, com autorização”, conta. Assistiu a cesarianas e partos normais e participou de plantões hospitalares para entrar no mundo da Bela. Já nos temas de maternidade atípica, decidiu aprender junto com a personagem, trazendo também a própria experiência.

Camisaria, blazer e cor

O figurino também ajuda a contar as camadas da Bela. No dia a dia, indo e voltando do hospital, ela aparece de camisaria, blazer e roupas confortáveis, o que reflete uma vida marcada pela disciplina. “Ela também está vivendo mudanças íntimas muito profundas, mas com a leveza dela”, explica Sheron. As cores mais vibrantes dialogam com essa nova fase e com a profissão dela de trazer vidas ao mundo.

Uma vitória que abre caminho

Com mais de 20 anos de carreira, Sheron vê na Bela uma conquista. “Antes de fazer a Sol, em Vai na Fé, não existiam tantas protagonistas negras nas novelas das sete, e depois dela, as protagonistas passaram a ser negras. Saber que, de alguma forma, contribuí para isso me emociona muito”, diz. Ela quer que o movimento chegue às meninas que sonham com a profissão.

“Se ela está lá, eu também posso estar”

É o pensamento que Sheron quer despertar nas meninas negras que a assistem. “Ser referência para tantas meninas e mulheres pretas é especial. E a Bela me permite ocupar esse lugar de um jeito inteiro, porque ela não é só um símbolo.”

Sheron Menezzes — Foto: Vinicius Mochizuki 

Dor e leveza ao mesmo tempo

A trama fala de luto e recomeço, mas Sheron define a Bela como solar. Para ela, uma coisa não anula a outra. “A Bela pode atravessar a dor e, ainda assim, continuar encontrando afeto, humor e vontade de seguir. A leveza é uma maneira de ela permanecer aberta à vida, mesmo quando tudo mudou”, explica. “A gente pode estar sofrendo e, ao mesmo tempo, descobrir motivos para recomeçar.”

Duas mulheres que se sustentam

A amizade entre Bela e Juli, vivida por Lucy Ramos, é o coração da história, e a química vai além do roteiro. “Existe uma escuta genuína entre nós, e isso acaba aparecendo na tela”, conta. Para Sheron, a relação reflete a realidade das mulheres pretas. “Raramente chegamos sozinhas aos lugares que conquistamos. Há sempre uma mão segurando a nossa em algum momento: uma mãe, uma amiga, uma mulher mais velha que abriu caminho.”

O desconforto como motor

Depois de tantos papéis marcantes, o que ainda move a atriz é a possibilidade de chegar a um lugar onde ainda não esteve. “Meus maiores saltos como atriz vieram justamente quando escolhi o desconforto e aceitei um desafio sem saber exatamente onde ele ia dar”, afirma. A Bela é mais um desses saltos. “Quantas mulheres brasileiras têm uma Bela dentro delas, tentando equilibrar ambição, cuidado, medo e coragem? É isso que me move.”

A Sheron de hoje

Fora da ficção, aos 42 anos, ela se define de forma simples. “Sou uma mulher que continua aprendendo a equilibrar os diferentes lados da vida (risos): a maternidade, os sonhos pessoais, a carreira e a vontade de experimentar coisas novas.”

Coberturas
Mais recentes
Destinos
Entrevistas