Psiquê e Pandemia

Vulnerabilidade emocional durante a quarentena, por Eryka Barreto. Ilustrações: Beca Ilustra.

A pandemia provocada pelo Coronavírus trouxe uma série de impactos nas esferas científica, ambiental, econômica, política, social, comportamental e, por consequência, psíquica. Ainda há muito a observar, pesquisar,compreender, para que se possa intervir de forma adequada e ordenada. Afinal, ainda vivemos seus efeitos e não vislumbramos sequer seu desfecho e consequências.

Se haverá mudanças estruturais no comportamento e psiquismo humanos, dependerá da intensidade e durabilidade das mudanças que ocorrerem nas demaisáreas afetadas. Caso contrário, o dito “novo normal”, será tão somente um retorno às causas que nos trouxeram até aqui.

De qualquer forma, as reações às situações que nos foram impostas pela Pandemia confirmam a nossa vulnerabilidade e despreparo diante situações extremas, quais sejam: o isolamento social, a instabilidade profissional e econômica, a crise política (principalmente no Brasil), o sofrimento pelas perdas sofridas e possíveise, por fim, o medo da morte, da mudança e do desconhecido. Todos põem à prova a nossa fragilidade e impotência perante o poder e mistérios da vida. Quanto mais vivemos de forma automática, superficial eindiferente, maior o impacto e o sofrimento. Quem já sofria dificuldades no campo psicológico, potencializou transtornos e quem aparentemente não os sofria, passou a sofrer.

Exemplificando:

O isolamento social trouxe fundamentalmente o medo da solidão, da exclusão e do desamparo. Fortaleceram-se as projeções e a crítica ao comportamento dos que fugiam ou negavam a Pandemia, desrespeitando regras e imposições de conduta. Trouxe o aumento dos conflitos nas famílias e casais disfuncionais, aumento da violência doméstica edos abusos sexuais. Aumento da carência/insegurançaemocional/afetiva, com maior procura por aplicativos de relacionamento, recaídas em relacionamentos desfeitos,por medo de perder a conexão humana e busca de validação afetiva/existencial. A prática da masturbação também se intensificou, assim como a busca por pornografia ou o uso de objetos sexuais. Impulsos perfeitamente naturais, cabendo atenção aos exageros e ao seu significado oculto.

A instabilidade profissional e econômica por si só desestabiliza a nossas necessidades básicas de segurança, bem-estar e realização pessoal, podendo levar a crises de ansiedade, depressão, dúvida vocacional e medo da perda de status e aprovação social. Valores que fundamentam a sociedade de consumo e competitiva em que vivemos.

A crise política aumenta a angústia acima e divide o país, tirando-nos a oportunidade de partilha, união, esperança, solidariedade e força de que tanto se necessita nessassituações. Além de que, como bem conceituou Nelson Rodrigues, revalida nosso “Complexo de vira-lata”, minando a autoestima coletiva e consequentemente a individual.

Por fim, a Pandemia nos trouxe de forma explícita e velada nosso medo ancestral da morte, da dor da perda, da mudança e do desconhecido que, em essência, levam aoutros medos ontológicos: o da desintegração, ruptura eimpotência.

O que devemos fazer a respeito para nos mantermos equilibrados diante tudo isso? Difícil responder. Não há uma resposta única para situações singulares mesmo que advindas de um contexto coletivo. Vivemos um momento histórico e existencial único que devemos transformar em oportunidade de reflexão e crescimento. Tentar nos tornar seres melhores, com maior poder de discernimento entre o efêmero e o transcendente. A melhor resposta está na pergunta que nunca se fez e que sempre se soube. Basta olhar para dentro, através e além. Se não conseguir, busque ajuda.

 

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