LIGAY – FUTEBOL DE TODAS AS CORES

O esporte mais popular do mundo, apesar de ainda carregar estigmas e conservadorismo, se tornou muito mais democrático no Brasil com um movimento que trouxe mais cor e brilho à modalidade: a LiGay Nacional de Futebol. A liga, que conta com times de vários estados, quebra preconceitos e paradigmas através de equipes formadas exclusivamente por homens gays – que amam futebol – e que encontraram na iniciativa um espaço para, além de baterem um bolão, vestirem a camisa do respeito à diversidade. 

 

O futebol movimenta milhares de torcedores ao redor do mundo, mas pode, especialmente, ser considerado uma herança cultural e afetiva do povo brasileiro. Campeonatos estaduais e nacionais, títulos mundiais, Copa do Mundo FIFA® a cada 4 anos, cidades paradas para jogos ou comemorações, jogadores carregando imagem de herois e mitos, marcas investindo milhões, coberturas significativas em grandes veículos de mídia e muitas outras características tornam fascinante o poder que o esporte tem sobre o Brasil.  

Por ser tão popular, o ideal – ou normal – seria a participação de todos sem discriminação, afinal,  o esporte foi feito para unir, e não segregar, mas o futebol ainda carrega a imagem de ser composto majoritariamente para homens, héteros e cis. E, apesar de a representatividade ter aumentado – temos Marta, eleita melhor jogadora do mundo por seis vezes, diversos campeonatos (e até Copa do Mundo) de futebol feminino, mulheres não só participando do jornalismo esportivo, mas agora, também, narrando jogos – a pergunta que fica é: mas e a comunidade LGBT onde se encaixa?  

Apesar de estar no país que mais mata LGBTs no mundo (segundo o Grupo gay da Bahia, 1 é morto a cada 19 horas), a cidade de São Paulo, como uma grande metrópole – a maior da América Latina – pode ser considerada um espaço plural e relativamente mais friendly e seguro para os LGBTs, vide os casais gays andando de mãos dadas, as drag queens montadas, os inúmeros estabelecimentos voltados para este público e eventos como a Parada do Orgulho, que reúne mais de 1 milhão de pessoas anualmente. Foi nesta cidade que tive o primeiro contato com o movimento que me chamou tanta atenção: times de futebol formados por gays. Existe ainda um time formado apenas por homens trans, o Meninos Bons de Bola. 

A Liga Gay Nacional de Futebol é composta por times amadores de várias cidades do Brasil, com nomes e identidades visuais que são uma atração à parte: Sereyos, de Florianópolis, Bharbixas, de Belo Horizonte, Magia, de Porto Alegre, entre tantos outros, como os fundadores da liga: Unicorns e Futeboys, de São Paulo e BeesCats, do Rio de Janeiro. Meu primeiro contato foi com os times de São Paulo, durante um evento armado para a transmissão de um jogo do Brasil na Copa de 2018. O uniforme pink do Futeboys, que ilustra esta matéria, bem como o mascote na bandeira do time, um veado, me chamou tanto a atenção, que procurei saber mais sobre. O Unicorns, por exemplo, não tem somente o time de futebol, e sim uma equipe de corrida e de treino funcional. O Futeboys tem fila de espera para novos jogadores.  

Todo o movimento resultou em campeonatos que celebram a paixão pelo esporte unida à diversidade. A Champions Ligay já teve 2 edições, com vários times, drags como líderes de torcida, mais de 1.200 torcedores por edição, famílias unidas, festa de encerramento e muita bola rolando, afinal, os garotos jogam bem e se dedicam bastante. A equipe da inVoga viu pessoalmente durante as fotos. Também há outro campeonato nacional organizado por um aplicativo de encontros gay e, claro, campeonatos internacionais, como o Gay Games, que aconteceu em Paris este ano e contou com uma grande delegação brasileira – com destaque para o time Beescats, que contou com reforço de jogadores de um outro time. Mais uma confirmação da união e do respeito que imperam. Interessante ressaltar que os eventos contam com alguns patrocinadores, mas os times não. Os meninos tecnicamente pagam para jogar, já que alugam as quadras, e os times são amadores. Passam longe daqui os números exorbitantes que são associados a alguns jogadores profissionais. 

Durante algumas pesquisas sobre o movimento, minhas certezas de que a formação de um time de futebol gay tinha outras motivações bem mais densas foram confirmadas: vários jogadores relatam preconceitos sofridos enquanto jogavam em times com jogadores heterossexuais. Um afirmava sentir que precisava se esforçar mais que os outros para demonstrar seu valor, outro contara que optou por não assumir a sexualidade por medo de retaliação. Nos times gays, eles são livres, felizes, se sentem acolhidos, têm esforço reconhecido e destaque em mídias renomadas do Brasil e do mundo.  

Na noite de quinta-feira – dia da semana em que o Futeboys se reúne para jogar em uma quadra nos Jardins – em que fomos fazer as fotos do time, o primeiro ponto a me deixar interessado foi a atmosfera: outros times também jogam no local, e, claramente, o Futeboys é o único formado por gays. Todos convivem harmonicamente, e um jogador do outro time demonstrou carinho pelo “time que joga rosa”, quando o paramos para pedir uma informação. O segundo ponto foi a treinadora. Sim, “o técnico” do time é uma mulher. Do Futeboys e de vários outros times da Liga Gay. Eu não deveria me impressionar, orgulhar ou emocionar, mas nem tenho palavras para descrever o que isso representa dentro de todo o contexto que já foi abordado aqui. O terceiro ponto foi exatamente o que eles mais defendem: a diversão e o respeito. A competitividade é afirmada pela dedicação e pelo talento dos meninos, mas é fácil ver que eles jogam felizes, amam praticar o esporte e estar entre amigos. Um dos capitães do time se machucou em uma jogada de outro e se juntou a nós no banco. Imediatamente recebeu um “desculpa, amigo” do colega de time, totalmente diferente da maioria das ações que vemos em jogos profissionais. O carinho que eles demonstravam aquecia aquela noite fria. Um pulando nas costas do outro, o atrasado cumprimentando o pessoal do banco com abraços e beijos, Pabllo Vittar tocando na caixinha de som durante o intervalo, e toda a atenção e gentileza que demonstraram com a nossa equipe.    

“Quanto mais presente e ativa a opressão social, mais os oprimidos se convencerão da necessidade de reagir e lutar”, afirma João Silvério Trevisan, em seu livro “Devassos no Paraíso”, em minha opinião, o melhor estudo sobre homossexualidade no Brasil. Em um ano especialmente difícil para a comunidade LGBT, em que relatos de agressões e uma possível perda de direitos motivados por política geram medo, além da potencialização de violência e gritos e homofóbicos entre as torcidas organizadas, um movimento como este é um ato político de afirmação, união e resistência, mas também é uma quebra de paradigmas que gera esperança para os meninos que, assim como alguns dos jogadores dos times, sofreram bullying na escola, foram excluídos, pressionados, julgados e acabaram se afastando do esporte, gerando sentimentos negativos e sofrendo até hoje. Os que sempre gostaram de futebol podem ter sofrido preconceito até no próprio meio LGBT por não se encaixarem no padrão. Para o esporte não devem existir padrões, e ninguém merece sofrer preconceito por qualquer motivo. Isto é básico para manter a paz em uma sociedade. O futuro pode ser melhor e mais leve para estes meninos, o futebol pode e deve ser mais inclusivo, e nós podemos apoiar e dar mais valor a quem defende causas como essa.  

Texto: Fellipe Amorim

Produção Executiva: Flávia Brunetti 

Supervisão: Victoria Costa 

Agradecimentos: Futeboys Futebol Clube 

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