TIRULIPA: DNA DO HUMOR

Titulipa conseguiu uma brecha na agenda disputadíssima para clicar para a inVoga e, em primeiríssima mão, revela que nada pode estar tão bom que não possa melhorar e que seu sonho atual é ser a próxima Xuxa

Se o humor não estiver no DNA de Everson Silva, onde mais ele estará? Filho de um dos maiores ícones da comédia nacional (quem nunca gargalhou muito com Tiririca que atire a primeira pedra), Tirullipa herdou do pai, além da semelhança, o amor pelo circo e uma veia cômica que o tornou um dos protagonistas da nova geração de humoristas made in Ceará.

Viajando o Brasil inteiro e se desdobrando entre um compromisso e outro da rotina lotada de show, programas de TV, projetos e parcerias, Tirú conseguiu uma brecha na agenda disputadíssima para clicar para a inVoga e, em primeiríssima mão, revela que nada pode estar tão bom que não possa melhorar e que seu sonho atual é ser a próxima Xuxa.

Tirullipa foto por Luis Morais

O Brasil inteiro te conhece desde pequeno e você começou muito cedo imitando seu pai em programas de TV. Mas houve uma hora em que você teve que encontrar seu próprio caminho no humor. Como foi essa descoberta e como você passou de TiriricaJr. para Tirulipa?

Comecei com meu pai aos 11 anos e, com 16 para 17, botei na minha cabeça que tinha que encontrar meu próprio caminho e minha própria identidade. Foi difícil… Eu só sabia imitar meu pai, nossa semelhança era grande, então foi complicado encontrar algo que fosse meu de verdade. Tentei de tudo, tive duas bandas: uma era a “Mó Mentira – a maior mentira do forró”, e foi a maior mentira de todos os tempos mesmo. A outra foi a “Levada Sacana”, que era uma banda de swingueira com forró e ficou muito bacana, mas, não foi pra canto nenhum, e a gente quase morre de fome. Inclusive, aprendi a cantar nas bandas, e foi o que tirei de bom dessa fase. Mas foi dos 21 pra lá que comecei a me descobrir, quando entrei no programa do Ênio Carlos, aqui do Ceará. Ele me deu a oportunidade de fazer a personagem Mulher Rapadura, a rainha das catirobas, e comandar o quadro Miss Catiroba que tinha em seu programa. Viajava o estado atrás de mulheres para o concurso, e foi um quadro que fez muito sucesso. Com essa personagem, descobri que eu não fazia só o Tiririca, que poderia fazer outras e que só dependia de mim. Depois fui trabalhar com o Tom Cavalcante – fiquei três anos fazendo o Théo Becker – e, nessa época, ele sempre falava: “Cara, tu não precisa imitar nada pra ser engraçado. A imitação vai ser um extra pro teu show, mas você é engraçado assim, com a sua cara”. Então peguei esses ensinamentos e levei para o Faustão. Lá, no Jogo da Comédia, percebi que tinha graça de cara limpa. Foi quando eu lancei a piada do “Tá gostando, tá?” e, daí pra frente, vi que tava encontrando meu caminho, e as coisas começaram a acontecer.

Como é essa diferença de entrar em cena de cara limpa e entrar vestido de personagem?

Eu achava que tinha que colocar uma peruca e me esconder atrás de uma personagem para ser engraçado, porque eu não me achava engraçado. Achava que o povo só riria se eu tivesse todo trajado, fazendo voz, etc… Mas, quando comecei a entrar de cara limpa, vi que eu era engraçado, só do jeito de olhar, do jeito de falar, de sorrir, da minha forma de contar a piada, de contar história. Percebi que eu não estava vestido de personagens 24 horas por dia e, mesmo assim, fazia os meus amigos rirem. Aí entendi que eu era engraçado e que eu podia fazer outros personagens, mas que também podia fazer graça de cara limpa. Foi só eu ser eu mesmo que deu certo.

Tirullipa foto por Luis Morais

E foi daí que surgiu o seu interesse por estar mais próximo do universo do stand up? Como você cria para essa forma de humor mais contemporânea que tá crescendo tanto no Brasil?

Isso. O meu show de stand up nada mais é do que as coisas que acontecem na minha vida. Comecei a trazer o que aconteceu comigo durante esses anos e o que acontece no dia a dia, porque sempre acontece uma marmota e uma fuleiragem diferente. Então passei a colocar isso em prática no palco: tirar a inspiração da vida real e colocar no mundo encantando de show, dos palcos. Quando encontro uma figura engraçada, uma história engraçada que acontece comigo, não deixo passar e conto no palco. Acaba que vira uma conversa com o público, onde eu falo sobre minha família, das complicações que tive até chegar aqui, viagens, shows, bastidores. Essa piada do ‘tá gostando, tá?’ foi inspirada na minha irmã, que sempre fala sussurrando, aí achei que aquilo ia rolar. Isso pra mim foi mais “fácil”, porque eu não precisei criar texto, eu trouxe coisas da minha infância, da minha família, do meu dia a dia. É o que eu vivo.

Você vem de uma família circense, se orgulha dessa raiz e se tornou um artista multifacetado, performático. Isso é influência do circo? Onde podemos encontrar esse traço no seu trabalho atual?

O circo é a escola do meu pai, eu fui feito dentro de uma barraca de circo e fui criado nele. Mas meus pais se separaram muito cedo e, quando eu era criança, morava em Pentecoste, no interior, e os circos sempre iam para lá. Cada um que chegava eu ia pra ver se era o do meu pai. Eu não tinha dinheiro pra entrar todo dia, aí me oferecia pra vender alguma coisa, geleia, pirulito, porque, além de ganhar dinheiro, eu ainda assistia ao espetáculo. A melhor parte, para mim, eram os palhaços, e tudo que eles faziam eu decorava. Eu perguntava: “ei, vocês viram meu pai? Meu pai é de circo, é palhaço”. Quando eu falava que meu pai era o Tiririca, todo mundo ficava espantado, dizendo que ele era muito bom, um dos melhores. Aquilo estava dentro de mim, veio do meu pai, da família dele, e eu já nasci com esse gosto pelo circo. Tanto que, quando consegui ter algum dinheiro, eu fiz o Circo do Tirullipa. Foram seis anos de projeto no Ceará, e não deu mais para seguir com ele por conta dos shows. A carreira explodiu de tal forma, que não tive mais tempo, mas, futuramente, pretendo retomar e ter meu circo de novo. Amo circo, é minha escola.

Muitas pessoas acham que, por ser filho de um artista já consolidado, as coisas foram mais fáceis, e você teve mais privilégios, digamos assim. Mas a verdade é que seu pai nunca deu nada “de mão beijada” aos filhos e você cresceu por seu próprio mérito. Como essa postura dele influenciou no homem e no artista em que você se transformou?

Dou graças a Deus por meu pai nunca ter me dado nada de mão beijada, porque isso influenciou muito para que eu crescesse e desse mais valor a cada conquista e cada passo que dava. Ele me falou: “-Meu filho, se eu consegui, você também pode conseguir”. Então, se as coisas têm acontecido na minha carreira, eu agradeço demais ao meu pai por não ter me acostumando mal. Ele me ensinou a pescar, me deu até a vara, mas me ensinou a fazer a isca.

Falando em redes sociais, suas filhas também são super protagonistas dos seus stories e já demonstram uma veia cômica, né? Como você enxerga isso nelas? Acredita que também possam seguir carreira artística? Você estimula, ou isso parte delas?

Então, elas aparecem muito nas minhas redes sociais porque o povo gosta, pede, e elas também adoram, mas, falando bem sinceramente, eu não queria essa vida de artista pra elas, não. Claro que seria um orgulho muito grande ver uma filha minha em uma novela ou seguindo meus passos, mas sempre converso com elas sobre priorizar os estudos, que é um caminho mais seguro. Digo sempre que o que aconteceu comigo acontece um caso em um milhão e foi a conjunção de vários fatores, como sorte, talento, luta, perseverança e sofrimento para poder chegar até aqui – e não quero que elas precisem passar por isso. Sei que estudar não é fácil, tudo precisa de esforço e sacrifício, mas é algo mais consistente, porque uma carreira como essa minha, uma hora, pode ser que não dê mais certo. Se elas estudarem, vão poder construir uma vida e serem quem elas quiserem. Mas, o futuro a Deus pertence.

Tirullipa foto por Luis Morais

Não é de hoje que você lida com a notoriedade, afinal, o Brasil te conhece desde quando você ainda era criança. Mas, nacionalmente, de uns anos pra cá, sua visibilidade cresceu muito, até mesmo por conta das redes sociais. O que mudou com a fama crescendo? Existe um cuidado para se manter sempre com os pés no chão?

O que mudou mesmo foi a correria. Graças a Deus estamos viajando o país com o show, e o momento está muito bacana, então fica mais difícil estar em casa como antes, curtir a família, os amigos. O tempo está curto. Outra coisa foi a popularidade, que aumentou. Antigamente era mais tranquilo, mas, hoje, não consigo, muitas vezes, estar em certos lugares, que já gera uma muvuca. Mas, fora isso, a humildade continua a mesma, ela é de raiz. O mundo gira, dá voltas, e também aprendi com meu pai a manter os pés no chão, não puxar o tapete nem passar por cima de ninguém para conseguir o que sonho. Não tem segredo para a humildade, ou você é ou você não é, seja com dinheiro ou sem. Tem gente que, mesmo já tendo sido pobre, quando cresce, pisa em todo mundo. Isso está na pessoa, na índole, na criação.

Os seus vídeos de paródia se tornaram uma marca e são muito aguardados pelo público. Neles, você escreve a letra, canta, dança, muitas vezes se traveste. Como é esse processo criativo? Você escuta uma música e já surge uma ideia?

Quando uma música de sucesso aparece, eu já penso bobeira e começo logo a fazer uma paródia. Na verdade, quem compõe a maioria somos eu e meu irmão, com a ajuda de alguns parceiros, e a gente faz em viagem, no avião, na estrada. Não perdemos tempo: escutamos a letra, escrevemos a nossa e já lançamos nas redes sociais. Isso tem dado um empurrão grande na minha carreira, porque as redes sociais estão muito fortes, e as pessoas ficam esperando pela próxima paródia. Os cantores quando lançam uma música já chegam para mim perguntando: “e aí, vai fazer paródia dessa? Já fez? Quero paródia, hein?” Eles cobram, e isso é muito bacana, é sinal de que tem agradado e porque nós não fazemos nada que denigra a imagem de ninguém, mas, sim, que leve alegria e a brincadeira. Nosso objetivo é fazer as pessoas se divertirem, e tem dado muito certo.

Ano passado você estreou na sétima arte com o filme Os Parças, que reuniu grandes nomes do humor e teve direção de Halder Gomes. Como foi a experiência de fazer cinema? Tem planos de outros projetos nessa área? Quem sabe um seu?

A experiência com Os Parças foi maravilhosa. Realmente sensacional. Não imaginava estar no cinema e fiquei muito feliz com o convite, com minha atuação, com a parceria que tive com o Tom Cavalcante, Halder Gomes, Whindersson Nunes e Bruno de Luca. Ele foi um grande sucesso – o filme de comédia brasileiro mais assistido em 2017, e só tenho a agradecer a todos por ter feito parte disso tudo. O cinema está aberto para o Tirú. Já recebi alguns convites que tive que recusar por conta de agenda, mas, esse ano, além de gravarmos Os Parças 2, já estou participando também de outro projeto que ainda não posso revelar. Então acho que dá para eu experimentar outras coisas e me descobrir no cinema, em outros personagens.

Todo mundo já conhece a veia humorística que você herdou do seu pai, mas o que mais você traz dele? É possível que a veia política também se manifeste?

Muitas pessoas perguntam se eu não vou entrar para a política, mas sempre respondo que não penso sobre isso agora. Acho que ainda tenho muito a fazer pelo povo brasileiro, levando alegria não só ao Brasil, mas ao mundo todo. Fiz há pouco tempo uma turnê pela Europa com seis shows e percebi que o legado que vou deixar ao mundo é minha alegria. Já disse não algumas vezes para a política, porque não é hora de pensar nela, e minha carreira vem dado certo como está. É isso que sei fazer, que gosto de fazer. Mas, se um dia eu entrar, teria que focar nela integralmente e tentar fazer a diferença seguindo meus princípios.

Tirullipa foto por Luis Morais

Você já vem se consagrando como um dos maiores comediantes da nova geração do humor nacional, mas, como bom escorpiano, está sempre com o olhar lá na frente. Quais são seus próximos passos e planos?

Costumo dizer que o melhor momento é o que vai vir, mas estou em um momento muito especial da minha vida. Melhor que ontem, mas amanhã posso ficar melhor que hoje. Estou fazendo bastante show, viajando muito, não tenho do que reclamar, mas a gente sempre busca algo a mais. Ano passado eu tinha o sonho de entrar no cinema e tive a oportunidade de ser convidado. Este ano, já tenho a vontade de ter meu próprio programa, então a gente quer buscar isso. Vou revelar em primeira mão para vocês uma ideia que tenho em mente: fazer um projeto infantil. Penso muito nisso devido às minhas filhas, ao fato de todo mundo falar que elas são engraçadas, que morrem de rir com Lalá e Lulú. Sei que é difícil, porque, para entrar nesse mundo, tenho que esquecer muita coisa que faço para os adultos, piadas de duplo sentido, palavrão… É outro universo, e a cada dia está me dando mais vontade de fazer, então, creio que ano que vem lanço algo para a criançada. Venho amadurecendo a ideia, trabalhando nisso e já estou criando muito material. É um sonho que tenho de fazer algo tipo como a Xuxa fez com o Xuxa Só para Baixinhos: lançar álbuns, músicas próprias, autorais, porque acho que está em falta coisas para esse público no Brasil, e eu quero encabeçar esse produto. Se Deus quiser, vai dar certo e, além de buscar por um programa de TV para os adultos, também quero ter um programa ou um canal bem feito para os pequenos com músicas, vídeos e, quem sabe, as próximas gerações vão ter o Tirú como o Xuxo da criançada.

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